O tempero da graça

 A salada de Amarguro e o toque de Bem-vinda


Digo-lhes com a força de quem já viu muita poeira subir das estradas da vida: não há dor maior do que aquela que a gente cultiva no próprio peito. Tem gente que caminha pelo mundo carregando um fardo de espinhos, alimentando-se do rancor como se ele fosse o único sustento possível.


Para falar dessa gente, eu lhes apresento Amarguro.



O banquete do desgosto


Amarguro vivia num canto esquecido do mundo. Sua casa era um lugar sombrio, onde o sol parecia pedir licença para entrar e, sem jeito, dava meia-volta. A solidão era sua única vizinha. Amarguro não nascera assim, mas a vida lhe cobrara caro: sofreu decepções que lhe rasgaram a confiança, rasteiras de quem ele mais amava e frustrações que foram, aos poucos, endurecendo seu coração.


A cada nova decepção, Amarguro colhia um ingrediente para a sua mesa. Ele não comia para se nutrir; comia para lembrar-se da sua dor.


Sua refeição diária era uma salada peculiar, feita com o que há de mais amargo na terra:


O jiló cru, pesado como o orgulho ferido;


A berinjela opaca, sem brilho, como os dias sem esperança;


A chicória amarga, que amarra a garganta e impede o riso;


E a endívia, folha por folha, acumulando o ranço dos ressentimentos passados.


Cada garfada era uma careta de dor, mas ele insistia em mastigar aquela amargura pura. Dizia para si mesmo que aquele era o seu destino.


O encontro com Bem-vinda


Mas a vida, esse mistério divino, não gosta de nós no escuro. Um dia, bateu à porta de Amarguro uma mulher cujo nome já era um abraço: Bem-vinda.


Ela trazia nos olhos a luz de quem já perdoou muito e, no sorriso, a paz de quem guarda o coração limpo. Bem-vinda olhou para aquela mesa escura, para a salada cinzenta de Amarguro, e não o julgou. Com mansidão, ela se aproximou e disse:


- Meu amigo, por que insiste em comer a dor pura, se a vida pode ter outro sabor? O rancor é um veneno que a gente bebe esperando que o outro morra. Deixe-me tocar no seu prato."


Bem-vinda não jogou fora o jiló, nem a berinjela, nem a chicória, tampouco a endívia. Ela sabia que as nossas dores fazem parte da nossa história; não podemos apagá-las, mas podemos transformá-las.


O milagre do azeite e do sal


Com mãos delicadas, Bem-vinda abriu sua pequena sacola e retirou dois elementos sagrados: o sal e o azeite.


Ela salpicou o sal sobre as folhas rudes. O sal penetrou nas fibras da chicória e da endívia, quebrando a rigidez do amargor. Depois, ela derramou um fio dourado e generoso de azeite sobre o jiló e a berinjela. O azeite envolveu cada pedaço, trazendo brilho, suavidade e um aroma que há muito tempo aquela casa não sentia.


Quando Amarguro, desconfiado, levou a primeira garfada à boca, seus olhos se encheram de lágrimas. Não era mais o gosto da derrota. Aquilo que antes era intragável agora era saboroso, reconfortante e cheio de vida.


A moral da história e a luz da palavra


O segredo de Bem-vinda não estava em mudar o passado de Amarguro, mas em dar a ele o tempero certo.

No livro da vida, fomos chamados para ser a diferença. Como está escrito:


"Vós sois o sal da terra; e se o sal for insípido, com que se há de salgar?" —  Mateus 5:13


O cristão é esse sal que dá sabor às situações mais amargas, que traz equilíbrio onde há discórdia. E o azeite? O azeite é o símbolo do Espírito Santo, a própria presença de Deus que suaviza as feridas da alma, cura o coração quebrantado e nos veste de alegria. É o que nos lembra a sabedoria antiga:


"Em todo tempo sejam alvas as tuas vestes, e nunca falte o óleo sobre a tua cabeça." — Eclesiastes 9:8


Não vale a pena viver como Amarguro, mastigando o jiló do ressentimento e a chicória da mágoa. Quando permitimos que a Bem-vinda graça de Deus entre em nossa vida, Ele derrama o Seu óleo sobre as nossas cabeças, perfuma a nossa história e coloca o sal da sabedoria em nossas palavras.


Que as nossas vestes sejam sempre limpas pelo perdão, e que nunca nos falte o azeite do altar para transformar qualquer amargor em banquete de paz. A palavra de Deus nos ensina:  “tendo cuidado de que ninguém se prive da graça de Deus, e de que nenhuma raiz de amargura, brotando, vos perturbe, e por ela muitos se contaminem.”  Hebreus 12:15 ARC


fonte>: RIBAMAR RODRIGUES  


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